Uma das frases mais famosas de William Shakespeare fala sobre a paixão entre Romeu e Julieta, que viviam de lados opostos, em uma verdadeira desavença familiar, mas do que não se trata Young Royals se não sobre a dor de não poder viver o amor, uma guerra entre lados oposto, onde o vilão é a sociedade, e o mocinho é o amor rebelde de dois jovens apaixonados, citando "Essas delícias violentas têm finais violentos[...]".
Antes de continuar, gostaria de esclarecer que pretendo comentar a série com spoilers, porém, quando for o caso irei alertar.
Em Young Royals, nova série da Netflix de origem sueca, acompanharemos o desenrolar de Wilhelm, príncipe da família real da Suécia, o filho mais novo, portanto não é o herdeiro, atraindo olhares somente ao se meter em algumas confusões, o que não é uma novidade quando se trata do filho mais novo de uma linhagem monarca (evidenciando, The Crown). Como resultado de suas ações, Wilhelm acaba sendo enviado para estudar em um internato, muito bem requisitado, cujo os estudantes vem das famílias mais ricas do país e arredores, e embora todos os olhares estejam voltados para o príncipe, os olhares entre o príncipe e um estudante bolsista vão ser responsáveis pelo desenrolar desta trama.
Então nessa história Wilhelm, que não tem muita certeza sobre sua sexualidade, começa a ter sentimentos que nem ele mesmo entende, por Simon, um estudante muito bem entendido como homossexual, só isso era suficiente para classificar a história como um clichê entre o príncipe e o plebeu, mas a história vai mais além.
Além de tratar de assuntos sérios como aceitação, de sexualidade e corpo, ainda vagueia entre o abuso de drogas. Os traumas familiares na série estão presentes no background de praticamente todos os personagens que são apresentados com um pouco mais de importância, sendo eles Felice, August e Sara.
Antes de comentar sobre alguns pontos importantes, vou dar minhas considerações finais sem spoilers. A série mesmo sendo curta (de apenas seis episódios), os capítulos com mais ou menos 1h de duração, são suficientes para entregar conteúdo suficiente para nos vincular emocionalmente aos personagens, e ao público estrangeiro, culturalmente também, além de ter reviravoltas na narrativa praticamente na metade, o que renova ainda mais o interesse, e embora possa deixar alguns revoltados (eu aqui), mantém o interesse do público para o restante da trama.
Na minha opinião a série encerra de maneira satisfatória, e embora eu peça por uma segunda temporada, a primeira temporada tem um final sólido, nem tudo na vida é final feliz, mas talvez agridoce.
As palavras não ditas, mas as dores sentidas
Antes de falar sobre o August, que acho que é um personagem que pode ter deixado muitas pessoas irritadas, vou comentar sobre o Wilhelm, também um pouco sobre o Simon.
Wilhelm nos é apresentado como um personagem que se mete em confusões, mas, não sei para vocês, para mim, tudo isso muda quando ele entra no colégio interno, e embora relutante no começo, isso tudo muda quando uma luzinha acende lá dentro, amor.
Embora ainda confuso, uma característica que Wilhelm mantém, é sua rebeldia, e mesmo diante das responsabilidades, ele se mostra contra as regras da monarquia, ao se envolver com outro garoto, e embora em vários momentos isso seja contornado por discursos de sua mãe sobre "responsabilidade com a família e o povo", o seu sentimento é real, e até o último momento ele não quer esconder (mesmo que ele comece escondendo), e ele quer aproveitar o máximo que puder quando finalmente entende que não podia ter aquilo para sempre.
O personagem dele é muito quieto, quase não fala, algumas poucas vezes ele se impõem com as palavras, ficando mais com atitudes, olhares, pois mesmo que de sua boca saia um "não" os olhos pedem por um "sim" desesperadamente.
A situação do Wilhelm inclusive me deixou bem reflexivo a respeito de sucessão hereditária em monarquias caso o único herdeiro fosse homossexual, e as regras de certa forma exijam um herdeiro de sangue. Obviamente isso não é um problema, mas me deixou pensando que em algum momento isso já aconteceu, e embora não fosse como desejaríamos que fosse, que seria o herdeiro se casando com seu parceiro do mesmo sexo e tendo um filho a partir de alguma "barriga-de-aluguel", por exemplo, ok, não me julguem, mas eu viajo bastante a respeito de algumas coisas.
Sem defender a monarquia aqui é claro, mas quem sabe se um dia, no futuro, se monarquias ainda existirem, um herdeiro homossexual, seja homem ou mulher, veja a assumir seu parceiro e tendo um filho mesmo de que sangue apenas por outros métodos. A série me deixou um pouco esperançoso a respeito disso. Sobre um futuro sem medo. Sobre grandes visibilidades.
Agora gostaria de comentar um pouco do personagem August, mas antes, só falarei brevemente sobre a Felice.
Esta foi uma das personagens mais interessantes, que mesmo sendo apaixonada desde a infância pelo príncipe, entende quando chega ao conhecimento de todos que ele é na verdade homossexual, e ela demonstra total apoio a ele. Interessante também termos uma personagem preta e gorda, que passa por dilemas de aceitação bem sutis, por ter uma mãe branca e magra, e quando digo "sutis", é por que mesmo que sejam questões importantes, a série trata todos os assuntos de importância com uma naturalidade impressionante, o que não parece um discurso forçado, ou que é só citado para ter, mesmo que a personagem não trate destas questões o tempo todo, não deixam de ser importantes quando citadas, novamente, sutilmente.
Quanto ao August, que eu sei que é um personagem que incomodou bastante gente, eu tenho bem mais coisas a dizer.
Assim que ele surge já podemos perceber que ele é o típico personagem que enche o saco, que não sai do pé e que se acha mais do que... sei lá, que se acha a própria rainha, e embora quase sempre personagens problemáticos, e que praticam bullying, acabem sendo humanizados em série, este personagem tem, de maneiras também, bem sutis, uma humanização com muitos alertas, e talvez a gente só não perceba.
Alguns ficam bem claros, quando logo no início da série já nos é dito que o pai dele se suicidou, o que é um alerta para nós ficarmos atentos que este personagem tem questões internas pesadas. Assim como de maneira mais sutil, a série conforme passa, aumenta mais e mais o número de cenas em que o personagem está obcecado pela sua própria imagem "perfeita", passando cada vez mais tempo na academia, e o personagem transparece estar cansado, mas em nenhum momento ele para. Logo temos também seu vício em comprimidos anestesiantes, que o permitem parar um pouco. Mas o tempo todo a pergunta fica no ar, o que ele está tentando evitar? Qual o seu medo?
No meio da série e um pouco mais pra frente, após nos revelar os problemas financeiros da mãe de August, a série também nos apresenta a relutância do garoto em vender algumas de suas posses e a antiga empresa do pai, cujo todos os bens parecem ter ficados como herança para ele, e isso tudo vem de uma necessidade de manter a memória de seu pai viva, já que seu objetivo é reestabelecer a empresa ao terminar os estudos. Não ficou bem claro para mim se ele deseja fazer isso por mera vaidade de ser da alta sociedade, ou por algum tipo de culpa por ter perdido o pai. De qualquer forma, as ações dele, mesmo sendo injustificáveis, têm uma justificativa. E é claro que muitas delas não são movidas apenas por algo irracional o momentâneo, mas também por uma rebeldia e irresponsabilidade em suas ações como qualquer outro jovem.
Tendo dito tudo isso, esta é uma série de drama, e romance, é claro, que muito me agradou, tanto pela temática gay, quanto pela naturalidade e ritmo que a série se passa. A série trouxe de volta para mim a sensação do que é conhecer alguém e como um processo natural se apaixonam, e tudo durante e depois, uma das sensação mais gostosas. É uma das minhas favoritas dos últimos lançamentos e eu estou fazendo questão de recomendar para todo mundo que eu conheço, com literalmente qualquer discurso, "Ai eu adoro torrada" "SABE ONDE COMEM TORRADAS? EM YOUNG ROYALS NOVA SÉRIE DA NETFLIX ASSISTE AÍ NA MORAL". Enfim, aos que leram este enorme caso meu com a série, obrigado, até breve.
5/5




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