Para começar, gostaria de dizer que eu não estou bem. Gente, EU NÃO ESTOU BEM. E agora que eu disse isso eu tenho passe livre para não se importar com mais ninguém. Estou liberto de todas as minhas responsabilidades em relação às outras pessoas, e isso significa que este texto terá muitos, e quantos forem necessários, spoilers, pois eu estou gritando e eu já chorei, mas tem lágrimas ainda presas nos meus olhos esperando para sair a qualquer momento.
Terminar de ver este filme, ou melhor, chegar na última parte deste filme (acredito que tem uma divisão clara de três partes/ três perspectivas) é um soco no meu estômago, um soco na minha cara, pois ele me fez perceber que, de verdade, me perdi nesse mundo horrível em que vivo.
Há algum tempo eu acho que todos podem concordar que ninguém jamais olhava para uma criança em uma cena de um crime ou sei lá, e pensava "ela é uma criança assassina", ou "ela é um monstro". Nosso mundo construiu isso em nós.
Desde sempre as crianças são sinônimos de inocência e pureza, mas nos últimos tempos temos visto uma "adultização" das crianças em níveis absurdos. Não é como se isso não acontecesse anos atrás, as mini-miss's são um bom exemplo de como o mundo sempre meio que viu crianças como pequenos adultos.
Acho que um bom exemplo disso é o anime Ano Hana (e esse é um dos meus animes favoritos. Suas semelhanças com esse filme talvez justifiquem um pouco do por quê de eu ter gostado tanto).
Os japoneses fazem MUITO isso, e aqui em Monster, como em Ano Hana, temos crianças que são "adultizadas". Ok, me engano, são situações diferentes, mas justamente por que Monster brinca com isso, com essa "adultização" das crianças.
Em Ano Hana temos crianças de uns 8, mais ou menos, anos de idade que têm sentimentos super adultos como o amor romântico. E não é dizendo que crianças não sintam amor romântico, mas é claro que elas não sentem como é em Ano Hana, é algo não avassalador e não simplesmente meigo, é algo adulto, é um amor devastador que marca os personagens para sempre. Eu acho muito difícil isso acontecer com crianças, na verdade acho que isso não acontece, as crianças vêm esse amor romântico de maneira doce, sem expectativas tão longas, afinal é uma coisa dos adultos ficar criando planos, depois de um tempo de vida você fica paranoico com como sua vida vai ser diante de determinados acontecimentos. Crianças não racionalizam tanto assim, e esse é o ponto. E outro exemplo é o filme Past Lives onde os personagens tinham sentimentos um pelo outro quando criança, mas nem eles entendiam muito bem. Aquilo marcou eles de fato, e eles ainda pensavam um no outro, mas aquilo nunca impediu que suas vidas seguissem, afinal, lembrar do amor de infância e esperar que ele venha ao seu encontro é algo de... criança.

Monster por outro lado, brinca com a "adultização" das crianças que a mídia construiu em nós, diante de milhares de obras com crianças todas elas feitas da perspectiva de um adulto, e este filme coloca o pé para que nós tropecemos.
Enquanto eu assistia Monster passei por processos. Primeiro, eu estava crente de que o Minato era uma criança que sofria bullying e que tinha depressão por conta disso. Claro, crianças podem ter depressão, mas este diagnóstico é muito mais ligado aos adultos, e nós deduzirmos quase que imediatamente que esta criança tem depressão pela maneira que ela se comporta, significa que nós estamos cronicamente ligados ao universo dos adultos. Para mim, neste ponto eu também estava acreditando que o professor era de fato um monstro. Tudo isso aqui é mérito do próprio filme, e tenho certeza que todo mundo pensou a mesma coisa sobre o garoto e sobre o professor, e que no fim deste ato a criança havia se matado.
No segundo ato novamente o filme brinca conosco. No primeiro ato a mãe do Minato conhece o amiguinho dele, Eri, e nós ficamos apaixonados por essa criança, ele é a criança mais doce, meiga, fofa, quaisquer adjetivos positivos possíveis, quase como um filhotinho de gato de tão fofo. Mas no segundo ato - eu não saberei exatamente quais sequências me fazem tirar essa conclusão por completo - eu passo a ver o Eri como uma criança articuladora e manipuladora (mais traços complexos de um adulto). Não qualquer criança manipuladora, A CRIANÇA MANIPULADORA. O responsável por fazer as outras crianças caçoarem do Minato, e fazer todas elas depois entregarem o professor como se estivesse assustada com medo da culpa cair sobre ele, e que ainda usava uma aparência doce e meiga e fofa para esconder o pequeno psicopatazinho que ele era. Cronicamente adulto.
Então só no fim, no terceiro ato, que eu percebi que eu estava cronicamente adulto, e que eu deixei o mundo horrível no qual vivo me consumir, deturpar minha visão.

Crianças estão constantemente se espelhando em adultos, isso é verdade, e esse acesso à tecnologia atualmente meio que está transformando elas em pequenos adultos. Elas fazem as danças sensuais do tiktok, não para serem sensuais, é claro, mas por que elas acham divertido, elas também não exatamente entendem o que é ser adulto, então desejar se um adulto parece ser algo que elas almejam, esperam com fervor. Deixando só um pouco de lado, e romantizando um pouco a infância (que é algo que eu faço com frequência), vamos só esquecer que temos crianças que ficam rebolando devido à grande massa de conteúdo relacionados que consomem, ou que elas estão frequentemente expostas a músicas com teor sexual, vamos imaginar que crianças brincam nas ruas, que elas não passam o tempo todo nos celulares, que elas desenham, que elas sorriem, que elas são doces e que elas não são violentadas. Vamos esquecer um pouco isso só para falar desde filme, tudo bem?
Este filme pega o mais puro sobre o imaginário infantil e coloca aqui para nós, enquanto no primeiro e segundo ato brinca com o mais duro sobre o que podemos pensar sobre as crianças. E ele nos tortura ao chocar a zero pessoas que as crianças são realmente muito doces e inocentes, ou seriam, se não estivessem inseridas nesse mundo que as transforma, que faz qualquer um virar um monstro.

Temos sim, crianças aqui com sentimentos de amor romântico, mas como crianças, nem mesmo elas entendem completamente, e ainda diante desde mundo violento, se vêm a esconder ainda mais seus sentimentos. E é doloroso. Como uma pessoas homossexual, eu posso afirmar que é doloroso não poder falar sobre seus sentimentos, não poder sentir os seus sentimentos, e eu fico triste por todas as pessoas que têm este sentimento em si e precisam, ou se sentem obrigadas a mantê-lo guardado. É 2024 e ainda não... eu diria "não crescemos", mas me recuso a relacionar preconceito com infantilidade, ou até traçar um paralelo com o fato de crianças não entenderem ou serem cabeças-duras quanto a isso. Elas não são. Não é questão de amadurecer, é uma simples questão de respeitar.
Antes que eu tangencie ainda mais o assunto, vou voltar: crianças com um amor que elas não entendem completamente, e que o mundo não permite que elas entendam.
Temos Eri, um menino muito doce, e que mesmo sofrendo todas as violências, ele é só um menino doce, cujo o pai o trata como um monstro, uma aberração por ele apenas ser um menino doce, e que independente de ele ser mesmo homossexual ou não, ele não entende, e o fato de ele não entender os motivos por ser tratado tão mal, não o abala totalmente, o abala com certeza, mas não totalmente, pois ele segue sendo aquilo que nasceu para ser, um menino doce.
Mas abala Minato. Minato se sente violentado a partir do que presencia de Eri. Um menino doce, cujo o pai o violenta por ele ser doce, e que os colegas o violentam pelo mesmo motivo, para Minato é motivo suficiente para temer dar quaisquer sinais de que ele se identifica com Eri. E quando paramos para analisar, disso parte a explicação de por que Minato não confia muito na mãe dele, ele inclusive a questiona a respeito do "cérebro de porco", pois ouviu de Eri que o pai o tratava assim por ser diferente. Minato não confia nem na própria mãe, com medo que ela reaja como o pai de Eri faz. Ele prefere enganar todo mundo, sem entender bem as consequências, e isso inclui mentir sobre seu professor, destruindo a carreira dele. Com medo de defender Eri dos colegas que o violentam, ele cria uma situação ainda mais caótica para distrair os colegas e virar o algo apenas por uns instantes. Ele reage como uma criança.

Passamos o filme vendo pela perspectiva de adultos imaginando que essas crianças têm sentimentos adultos e reagem como adultos, mas ele não entende os sentimentos adultos, não possui sentimentos adultos e tudo que ele faz o filme todo e reagir como uma criança confuso, fugir, e tentar aproveitar, que o menino que ele gosta não deixa de falar com ele só por que ele não o defende, pois ele é tão doce que não consegue nem ver maldade, ou melhor, ele também gosta muito de Minato, e reage como uma criança que não saber o que está sentindo mas deseja desesperadamente ter o amigo por perto.

Eles atravessam o fim da linha, e eles correm livres. Eu adoraria acreditar que termina em um final feliz, mas todos os sinais que o filme nos dá é para nos dizer que talvez eles sejam bons demais para este mundo tão cruel. E por fim eles saem felizes, correndo, brincando. Não há beijo. Eles são crianças, e se o mundo deixasse as crianças crescerem sem interferência, tudo o que elas teriam até chegar o momento certo seria um grande amigo, um amigo inseparável.
Um amigo por quem você daria o seu sapato.
5/5
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