quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Babel: ou a necessidade de violência

 

Eu acredito que o ser humano nasce com empatia. Uma empatia que vem do próprio convívio com outros seres humanos. Mas a empatia não é algo permanente, se ela não for ensinada, então você logo se esquece o que significa.

Posso dizer com propriedade que é bastante óbvio que no nosso mundo os homens são bem menos ensinados a ter empatia do que as mulheres, afinal o sistema machista patriarcal, ao mesmo tempo que tenta educar seus filhos para ter empatia pelo próximo, ensina-os também a reprimir emoções, não expressá-las, não se preocupar com outros homens demais, pois seria demonstrar carinho, e não se demonstra nem mesmo carinho neste sistema. Como esperar que um homem desenvolva sua empatia quando ele está constantemente sendo cerceado?

Empatia é coisa de mulher. Romance? Coisa de mulher. Homens gostam de violência. Homens gostam de produções que não exprimam sentimentalismo, no máximo o valor de uma longa e bela amizade entre homens.

Em Babel: ou a necessidade de violência, a genial R. F. Kuang escolhe um protagonista homem, não por acaso, ela quer escrachar todas as rachaduras do sistema desenvolvido pelos homens. Mas não foi por isso que iniciei escrevendo sobre empatia. Eu iniciei esse texto falando sobre a empatia e a necessidade de ensiná-la, justamente por que eu fui ensinado a ter empatia. O caso é tão grave que certa vez meu primo caiu, cortou o joelho, e eu estava do lado dele chorando POR ELE, pois ele foi ensinado a nem mesmo chorar. E falei tudo isso apenas para dizer que definitivamente Babel: ou a necessidade de violência não é um livro para quem não tem empatia, pois se você não puder se conectar com o tipo de violência que estes personagens sofrem nesta história, mesmo nunca tendo sofrido essas violências, então você simplesmente não vai compreender a necessidade de tudo que é discutido aqui.

Falar sobre colonialismo para uma pessoa que não compreende a dívida histórica que os europeus têm com o restante do mundo, é como falar com uma pedra. Qualquer semelhança com a realidade neste não livro não é coincidência. R. F. Kuang escancara a podridão do sistema capitalista e colonialista, que explora nações, rouba dessas nações e não está preocupado se está levando estas nações ao fundo do poço. Após os Europeus já não conseguirem mais explorar sua própria terra, esgotarem seus recursos naturais, eles escravizam outros povos e roubam dos seus recursos. Recursos estes que foram protegidos e preservados até então por conta de uma cultura de conexão e respeito, e empatia, que não se estende apenas a outros humanos, mas ao animais, à natureza, ao meio ambiente, algo que o sistema capitalista não compreende e jamais compreenderá, e chamará de não civilizado, quando não, selvagem, para justificar por quê não explorar a terra, esgotar sua terra, poluir sua terra, ao invés de viver em colaboração com ela.

Babel: ou a necessidade de violência é um livro alimentado por uma bagagem tão densa, mas onde a autora se preocupa em não torná-la inacessível, pelo contrário, R. F. Kuang quer que seu livro seja acessível. Você não precisa ter quinze faculdades para ler este livro, ela vai lhe explicar a maioria dos conceitos, ela vai colocar notas de rodapé onde achar necessário para que você não sai sem saber o tipo de máquina cruel o colonialismo é (sim, ele É, ele ainda continua entre nós, nós somos vítimas de um sistema que se oculta tão bem que faz você acreditar que ele está no passado).

Chegando ao final deste livro eu chorei, estava muito emocionado durante vários momentos nestes capítulos finais, e não tem como não se emocionar. Esta história não acaba. O livro é uma fantasia, mas retrata o nosso mundo, e nós estamos vivendo isso até hoje, portanto não acabou. As palavras finais de Victorie, em suas lembranças, resumem bem o que é viver neste sistema, onde nós sempre parecemos impotentes nas mãos de grandes corporações que enriqueceram a custa da exploração de outras pessoas, cujo o passado é esquecido, e passam a se tornar exemplos de figuras que você deve se inspirar. A meritocracia é impulsionada e apoiada por pessoas pobre que não entendem que elas NUNCA vão chegar a lugar nenhum a menos que o sistema permita. Me pergunte um pouco mais adiante, e eu lhe direi. Não tenho a resposta para quando isso vai chegar ao fim, para quando seremos livres. Talvez ninguém viva para ter essa respostas, mas se vivermos, posso lhe responder mais adiante.

 Por fim eu gostaria de agradecer a R. F. Kuang por este livro. Definitivamente é o melhor livro da minha vida, e eu jamais colocarei outro acima deste. Como uma grande autora ela não precisa escrever com todas as letras para que as coisas sejam ditas. As informações estão lá, estiveram lá o tempo todo e você pode ler e interpretar como achar melhor, mas as respostas existem para quem quiser encontrá-las. E para mim as respostas estavam lá quando me perguntava se Ramy amava, romanticamente, Robin, e vice versa. Na última vez que isso é colocado em questão, nas cenas finais de Robin, R. F. Kuang é muito perspicaz com as palavras, ao engavetar Oxford e Ramy, e nos dizer que Robin estava se apaixonando. É obvio, quem leu toda a história conhece a escolha de palavras da autora, e apaixonar-se é tão lindo e específico, e talvez seja o último pilar que ela quisesse desmoronar em um livro que existe para isso. Dois homens podem se amar romanticamente. Mesmo que eles não entendessem perfeitamente, e não tenham tido tempo para desenvolver isso, devido as circunstâncias, eles podiam, eles amaram, e expressaram, apenas não concluíram isso.

 R. F. Kuang para mim é a maior inspiração. Um livro como esses, com esse nível, vindo de uma autora tão jovem, é uma inspiração. Nós estamos acostumados a estar diante de livros tão elaborados assim quando se trata de autores mais velhos, com anos de carreira, R. F. Kuang é só um pouco mais velha que eu, e eu torno a agradecê-la por isso. Não é fácil escrever, muito menos concluir uma história, e ela mostra que você não precisa ter todos estes anos, para concluir uma história, e fazer A HISTÓRIA. Aqui em minha casa adoramos a ela. Obrigado por tudo R. F. Kuang, e estou até agora, vivendo cada momento de Babel: ou a necessidade de violência como um filme em minha cabeça. 

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