Eu fui assistir a esse filme com um pouco de pé atrás. Algumas pessoas já haviam me falados coisas ruins sobre ele, o que me deixou frustrado, pois eu tinha a expectativa alta, mas é como dizem, não confie nos outros. Talvez o filme fale um pouco disso também, só que em um sentido muito mais pesado quanto uma simples opinião pessoal sobre um filme. De qualquer forma, Noite Passada em Soho (Last Night in Soho) foi um filme para mim, que é incrível, porém, sinto que o final pode decepcionar um pouco, principalmente na dramatização dos fatos, que parece exagerada. Ao mesmo tempo, entendo as referências à forma de filmagem de filmes antigos em cenas de violência ou de tontura, perseguição. Então mesmo que essa sequência de cenas no fim do filme seja um pouco estranha diante do direcionamento do resto do filme, eu compreendo, e aceito, e o filme não perde seu mérito.
Esse artigo contém spoilers.
Neste artigo eu irei compartilhar, sem poupar detalhes, todas as minhas observações que fiz durante o filme, as mensagens, da maneira que eu o interpretei. Independentemente da intenção dos autores, a minha interpretação será absoluta aqui.
Acho que Noite Passada em Soho, trás tantas nuances que é bem difícil comentar, pois do começo para o meio você tem uma interpretação, e do meio para o fim, essas interpretações de expandem para coisas muito mais sombrias, pesadas. Mas para facilitar, irei dividir aqui em camadas. Mesmo dividindo, talvez fique ainda um pouco complexo, principalmente se considerarmos que toda essa situação que ocorre no filme é devido à sensibilidade com o mundo espiritual que a personagem Eloise possui.
Admiração hipnótica?
Desde o início do filme uma pergunta ressoou para mim, "Como é ser um espectro na vida de outra pessoa?". Eu imaginei que o filme era muito mais sobre isso, a perda de identidade diante essa espécie de "admiração hipnótica" que se tem pelo modo de vida de outra pessoa (o filme prova-se ser muito além disso).
Em todo o primeiro momento do filme, quando Eloise é apresentada a Sandie, uma mulher linda, na moda, vivendo nos anos 60, época a qual Ellie tem bastante apreço, a garota sente-se influenciada a ser mais como a outra, seja pelo jeito despojado de Sandie, ou sua segurança em si mesma, algo naquela jovem loira atrai a atenção de Eloise. Uma espécie de admiração, quase como uma paixão, mas muito mais um apreço pela forma de portar-se, se ser, da outra. Isso fica tão evidente, quando todos os planos de Ellie são voltar logo para casa para ser uma mera observadora da vida daquela outra pessoa.
Eu facilmente traçaria uma alegoria às digital influencers da atualidade, que alimentam as redes sociais com suas memórias forjadas, apenas para que outras pessoas olhem, se imaginem como ela, desejem sê-la, a admirem, chegando até ao ponto de algumas dessas pessoas viverem para se tornar algo semelhante, mesmo sabendo que jamais poderão ser ela. Mudança de aparência, personalidade, moda.
Até que ponto a admiração é saudável?
Durante essa parte do filme comecei a me questionar, afinal, às vezes quando você quer ser alguém, admira alguém, nem sempre é inveja do que essa pessoa tem, mas talvez, uma paixão por essa pessoa. Eu posso dizer isso muito bem, e acho que principalmente, jovens LGBTQIA+ vão entender. O apreço que se tem por alguém, geralmente do mesmo sexo, que você pensa ser uma admiração, um vontade de querer ser como aquela pessoa, apenas para não admitir que está apaixonado.
Embora todas essa interpretações possíveis, o filme não segue exatamente para esse lado. Essa mudança do filme faz me lembrar de O Cisne Negro, onde a personagem principal quer tanto se aproximar da perfeição que toda a trama entra em um estado sobrenatural. Os dois filmes não tem muito a ver, mas essa mudança, e foco em elementos que parecem sobrenatural, pelo menos aqui em Noite Passada em Soho, é real, e torna-se o foco.
Antes de seguirmos até à sequência dos fatos, eu gostaria de falar sobre o fato da presença da mãe da Eloise estar presente com ela durante o início e até no final do filme. Se ela notasse que a presença da mãe dela não era um sinal ruim, e sim um bom, talvez tivesse saído daquela casa onde todas aquelas desgraças passaram a atormentá-la.
Porém, a realidade encantadora da vida de Sandie, que é usada para conquistar a atenção de Eloise, abafa tal pensamento, algo que ela só percebe no fim, quando sua mãe volta a acompanhá-la.
A humilhante realidade
Chegamos ao ponto do filme onde Soho revela sua verdadeira face. A fábula colorida e vibrante dos anos 60 cai diante do colo de Eloise tanto quanto de Sandie, que encontra-se no meio de violência, drogas, vícios, prostituição, sexo. Soho que parecia um conto de fadas se torna um pesadelo.
Como o mundo pode destruir os sonhos de uma jovem mulher sonhadora, falando sobre o filme, é claro, pois sabemos muito bem que o mundo é capaz de destruir os sonhos de qualquer um. Mas diante da situação, Sandie acaba envolvidade em uma Soho que quer dela apenas a sua beleza, o seu corpo, mas não deseja ouvir os sonhos, e se os escuta, não os deseja. Soho mostra-se um lugar perfeito para destruir todos aqueles que não sabem exatamente como o mundo funciona.
O que me leva a um outro ponto, o que a prostituição impõem às mulheres.
Por que prostituição é uma opção, no mundo real mesmo? Por que sempre houve essa submissão de desejos, onde uma mulher tem sempre a opção de tornar-se objeto sexual para homens? Ninguém jamais pensaria em se prostituir se os homens não fossem sádicos o bastante para pagarem por uma relação íntima carnal. É algo tão feral imaginar que algo como isso vem desde muito, muito tempo atrás, e que se estabiliza até hoje em dia, e torna-se cada vez mais fácil vender o seu corpo. O mais interessante em pensar sobre isso, em relação aos dias de hoje, é que as pessoas estão começando a naturalizar algo que de forma alguma deveria ser normal, mas que se está começando a pensar assim, por que a prostituição já está como fonte de trabalho há tanto tempo, que era de se esperar.
Quando falo de prostituição, falo também da prostituição digital. Essa venda, essa exposição do corpo, essa imposição de desejos sobre o corpo constante, a alimentação de vozes anônimas da internet, parece que tudo isso, a naturalização de tudo isso começa a despertar o desejo, até em que nunca desejou se mostrar, por soltar trechos nus de seu corpo anonimamente na internet, como alguém que joga pães para pombos nojentos em uma praça.
Essa relação de satisfação por ser admirada, desejada até, foi naturalizada, e a prostituição hoje em dia está caminhando para um pouco tão normal que nem sabemos se é possível chamar assim mais. Mas e as consequências?
Em Noite Passada em Soho, após entrar neste mundo, a personagem da Sandie vê-se rendida, onde a recompensa são seus próprios sonhos, amarrados num topo de uma árvore muito alta, onde a única forma de alcançar é escalar, não sei, talvez na pilha de corpos de homens mortos que ela mesma tenha que matar.
A morte da alma
Sandie torna-se uma assassina, e é quase que injusto julgá-la. Tudo o que ela fez foi confiar em um homem que a prometeu a vida, mas tudo o que a oferecia de verdade era a morte. A morte da alma pode ser cruel, pode ser sem volta. Mesmo que Sandie resolva se livrar os demônios que entraram em sua vida após ela oferecer sua vida ao diabo, os sonhos que ele amarrou no topo de uma árvore bem alta, bem, estes sonhos já se foram.
É como dizem, sonhos só estão vivos em pessoas com almas. As pessoas sem almas vagam perdidas, buscando passar o tempo. Buscando passar muito tempo, tanto tempo, fingindo esquecer onde deixou sua alma, afinal, se lembrar é doloroso.
No final o filme mesmo parece colocar os estupradores de alma de Sandie como os mocinhos, os merecedores de alguma ajuda ou perdão. Como os homens são fracos não é? Eles se sentem no direito de destruir a vida de uma mulher, eles em momento algum pensaram "talvez ser prostituta não seja exatamente o sonho da vida dela", mas no final, temos homens implorando por misericórdia, a misericórdia de uma mulher. NÃO!
Eloise, mesmo apavorada, ela entende, e nesse ponto não sabemos se qualquer pessoa seria capaz de aceitar os motivos, ou compreender, mas Ellie viveu no corpo de Sandie, ela presenciou, ela sentiu todos os fragmentos de alma despedaçados que vagavam naquele quarto, todos eles se repartindo um a um. É bem mais fácil entender o ponto dos outros quando se está na pele deles.
Definitivamente não estou aqui defendendo homicídio, mas uma mulher teve sua alma dilacerada por todos aqueles homens, e tudo o que ela fez foi tirar a alma deles também. Me parece uma troca justa.
É por isso que volto ao ponto da prostituição, e como absolutamente ninguém gostaria de estar nessa. E mesmo com toda essa normalização da exposição virtual, ainda assim, ainda há motivos. Um dia, essa criança teve um sonho, ser uma grande cantora em Londres, e que ela só alcançaria daquela maneira, talvez se a dissessem que ela nunca alcançaria, talvez a oferecessem essa maneira de todo jeito, ela aceitaria possivelmente, afinal, ela já estava ali, ela já não tinha mais seus sonhos, então onde mais ela iria para se reconfortar?
Considerações finais
Eu encerro com as minhas considerações finais, apenas querendo dizer que em momento algum esse texto trata-se de uma crítica a quem se prostitui, jamais, é uma crítica à prostituição, e principalmente ao mundo dos homens onde vivemos, homens nojentos, grotescos, que criaram uma rede de "prazer" para eles, onde depositam suas frustações ao preço da vida de outras pessoas. Não há sequer uma pessoa com um pingo de humanidade que apoie a prostituição, e coisas semelhantes. Todo esse império nojento, capitalista, que começa em algo até bem simples, evoluiu, e estamos aqui falando de tráfico infantil, de mulheres, de pessoas, de órgãos, e sabemos um tudo isso está relacionado. A verdade que todo esse mundo nojento é muito mais sobre o dinheiro que os homens recebem do que sobre o prazer. O prazer de destruir a vida das pessoas. Pessoas cruéis, que não são humanas, elas se aproveitam das outras, ela usam, vendem as outras. Como alguém pode não ter um único pingo de sensibilidade, de humanidade? Como alguém consegue viver em um mundo de morte como esses e não sentir nada.
Novamente, não é sobre quem se prostitui, é sobre todo o mundo sombrio que a maior parte das pessoas sabe que existe, mas não se importa enquanto não o atinge.
Noite Passada em Soho, definitivamente não é sobre tudo isso, mas com assuntos assim tão pesados sendo tratados, há de levantar a reflexão. Onde estão escondidos os homens que devoram as almas das pessoas e nunca são punidos?
5/5







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