Família do Futuro é um filme de 2007 da Disney que foi bastante esnobado na época, sendo um dos primeiros filmes do início da era 3D do estúdio, que começava a engatinhar enquanto a Pixar já estava decolando. Apesar de uma decepção na bilheteria, o filme é uma verdadeira pérola no catálogo da Disney, e é um dos meus filmes favoritos da vida.
Mais recentemente passei a olhar Família do Futuro por uma ótica diferente. Embora a história seja emocionante e linda, e eu adore o fato de me identificar em diversos aspectos com o personagem principal, o visual do filme - que sempre me chamou atenção - retornou para mim com uma reflexão muito interessante desde a última vez que reassisti, e vou tentar desenvolver aqui, mas esta análise não vai se limitar ao visual, pois vou aproveitar a oportunidade para falar tudo e um pouco mais deste filme que tem um lugar especial reservado no meu coração, e carrega uma daquelas mensagens que depois que você recebe, fica reverberando na sua cabeça.
Um pouco sobre personalidade e família
Da última vez que assisti a Família do Futuro retornei a algo óbvio que eu já havia notado antes, mas não tinha refletido a respeito: Os personagens expressam sua personalidade.
Isso parece óbvio, especialmente em um filme de animação, e aqui se apropria bastante do aspecto de "Show don't tell" (Mostre, não conte), onde cada personagem vai LITERALMENTE expressar tudo sobre si apenas no visual, este filme, entretanto, leva esse tópico bem a sério, e faz questão de não deixar um único personagem fora dele.
Atribuo à responsabilidade disso da direção artística, o design de produção do filme que recorre ao retrofuturismo para criar uma versão futurística estética onde tudo é super exagerado, onde as pessoas não escondem nada, onde o que elas são faz parte delas, e isso é muito significativo. Se apropriando de várias estéticas de vanguarda, como neoplasticismo, futurismo, dadaísmo, que foram inspirações para os estudos da criação estética do retrofuturismo dos anos 60 e 70 que vemos em Jetsons, Speed Racer, Star Trek, a proposta parece ser adaptar os objetos já existentes a novas funções meio megalomaníacas. Em Família do Futuro isso é adaptado para a estética dos anos 90 e 2000, com objetos daquela época, e embora beba na fonte das influências do passado, tem espaço para se recriar, a partir das mãos dos excelentes designers escalados para esta produção.
Lembro bem que desde a primeira vez que vi esse filme, na verdade conheci por um álbum de figurinhas oficial de divulgação do filme, da mesma época, que era prática bem comum da Disney, o que mais me encantou era a quantidade de personagens, mas acima de tudo, como cada um deles era tão único que eu, mesmo sem assistir, inventava histórias sobre eles. É claro que algumas escolhas do filme são propositalmente exageradas, e falsamente sugestivas, como o tio que parece um super-herói, mas é apenas um entregador de pizza. No fim o visual do filme de engana de propósito, todas aquelas pessoas parecem muito mais do que são, como se todos eles fossem realmente heróis, como se a visão de futuro fosse um monte de pessoas que se vestem com roupas feitas para se destacar - o princípio de um uniforme de super-herói.
Para Lewis (que aliás, passei a vida inteira acreditando que era Louis por causa da dublagem), este visual excêntrico em cada personagem representa também um encantamento com uma nova realidade, uma realidade que ele "não pertence". Além de representar um estilo destoante para gerar um choque temporal, ele é encantador, pois o nosso protagonista parece estar entre pessoas que finalmente entendem como ele pensa e que ainda, mesmo elas apenas sendo elas mesmas, de alguma maneira fazem isso de modo a parecem super-heroínas.
Em Família do Futuro eles não são heróis, eles são apenas eles, e talvez essa seja a mensagem mais importante quando colocado em paralelo com a realidade atual, em um mundo onde todos parecem ser iguais, parece robôs com um padrão de chapéu-coco na cabeça, ser você mesmo é um ato de heroísmo. Não podar-se, exibir-se, esbanjar você mesmo à sétima potência é heroísmo. Nenhum deles é infeliz sendo como são, e aliás, todos ao redor apoiam - como uma família deveria fazer, principalmente.
Embora nenhum desses personagens seja super aprofundado, acho que faz parte da magia dessa história. Nós não precisamos saber tudo sobre eles, e eles próprios não precisam saber tudo sobre si, mas se amam apesar disso, afinal há aquelas coisas que nem todos da família sabem, aquelas coisas que você reserva apenas a você ou alguém muito próximo, e mesmo assim, o laço familiar é representado aqui como algo que apesar de tudo não se rompe, não julga, e acolhe. No fim, Lewis tem apenas um parente de sangue em toda essa história, o seu filho. Seus pais são adotivos, seus cunhados e sobrinhos vêm todos do sangue da esposa, ele tem um robô, um dinossauro, sapos, uma marionete, e mesmo assim, eles formam uma família.
Apesar de tudo isso o filme traz muitas outras mensagens mais óbvias, como não desistir de sonhos, mas principalmente não desistir de ser curioso, pois a curiosidade bem usada pode revelar um futuro. E apesar do filme ser sobre o futuro, sua mensagem é sobre o agora, a cidade se chama "Today Land", pois é sobre o hoje. Seja curioso hoje, crie hoje, ame hoje, todas as ações do hoje que criam os resultados do amanhã.
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Nota:
Particularmente esse é um filme muito importante para mim, mas difícil também. Essa mensagem é muito linda e positiva, e é super estranho estar diante de uma mensagem como essas e ficar melancólico como me acontece, mas talvez seja por uma falta de seguir corretamente as instruções. O resultado de muito da nossa tristeza, e da minha, é pensar sobre o futuro, seja em grande escala como quando olhamos o cenário global, ou em menor escala como quando vemos o momento de nossas vidas que não nos agrada e não nos faz bem. Chorar por imaginar que não há um futuro muitas vezes parece um pouco mais romântico do que se lembrar de pensar no hoje, de seguir em frente. Vou tentar me lembrar dessa vez. Meus sinceros agradecimentos aos envolvidos nesta obra.



