quinta-feira, 19 de junho de 2025

Sereias não é sobre sereias

 Antes de mais nada, este post terá spoilers do começo ao fim. Esteja avisado.

Sereias da Netflix não é sobre sereias. Olha eu novamente vindo falar de Julianne Moore. Eu disse que queria falar sobre Sereias no meu último post, e já tem semanas que eu assisti, mas eu não poderia deixar passar a discussão super interessante que esta série traz.

Acho que quando falamos de Netflix, esta série está em uma daquelas apostas do Streaming para o Emmy. Algumas poucas produções se destacam, e dessas que se destacam, um minúsculo grupo se classifica como verdadeiramente boa. Sereias e Adolescência são as apostas da Netflix desta primeira metade do ano para o circuito de premiação, e isto é claro quando você vê o nível de qualidade. Em Adolescência temos algo totalmente inesperado, mas em Sereias temos grande elenco, e que, graças a Deus, não foi desperdiçado.

A Netflix tem aquela famosa tática de indução do Streaming, algo que eles criaram pois eles não têm grandes marcas, eles não tem as grandes franquias, então precisam se estabelecer em cima de títulos que atraiam o público e já dê um indício do que se está esperando. Sereias indica, obviamente, sereias. Bom, neste caso se está indo esperando uma série de sereias na Netflix, sinto em dizer, eles estão brincando com você.

Sereias não apenas não tem sereias, como também segue lhe provocando até o final na esperança de que no último segundo um vestígio de uma sereia vá aparecer. Não aparece. Não é sobre sereias, mas sobre a ideia por trás de uma sereia, e esta série é um potencial perigo para homens que assinam o streaming e esperam uma série de fantasia talvez um pouco sinistra, mas que vão desistir nos primeiros segundos, e, DEUS, é melhor que o façam, pois esta série é claramente para mulheres e gays.

Obvio que o discurso dela é super importante, mas ele é tão minucioso que duvido muito que um homem cis hétero entenderiam, mas acima de tudo, dificilmente um homem cis hétero teria coragem de ver uma série repleta de mulheres, três protagonistas femininas abarrotadas de iconografias femininas, em um universo super feminino que seria de matar. E aliás... por que mesmo estou falando de homens quando isto deveria ser sobre Sereias? Bem, por que a série Sereias não é sobre sereias, e longe de mim falar que é sobre homens, mas ela é, sim, sobre todo o universo que a sociedade machista nos induz sobre a visão da mulher na sociedade.

Esta série vai brincar conosco do começo ao fim, usando das nossas expectativas e preconceitos para nos enganar. Você não vai encontrar um sereia, uma líder de seita que manipula as pessoas, uma megera que matou a ex-esposa de seu marido rico. Vai encontrar uma mulher, diante da sociedade. Bem, neste caso é uma mulher poderosa, rica, mas que todo essa riqueza e poder não é necessariamente dela, é algo que pode a qualquer momento lhe ser arrancado.


 Devo admitir, fui enganado. Eu esperava uma cauda de sereia, eu esperava um canto hipnotizante, mas no fim nada disso. Todos os elementos de suspense e misticidade são criados sem nada explicito, brincando com a nossa vontade, e isso é genial. Nos induz até o último segundo a esperar um sinal de que o sobrenatural esteve ali, quando no fim das contas era o mais puro suco da realidade. Mulheres lutando para conseguir atingir um patamar de poder, perdendo sua independência para um homem, perdendo sua vida para dedicar-se a um homem.

Quando minha cabeça começou a se abrir, comecei até a interpretar de outra maneira a série, como se o elemento sobrenatural ainda existisse, mas fosse uma espécie de matrix controlada pelo marido. Algo semelhante ao que acontece em "Mãe", só que não se trata de uma matrix, mas deu pra entender, um universo próprio que ele comanda, que ele usa para se entreter, mas que no fim das contas é realidade, ela é assim mesmo, e homens poderosos fazem esse tipo de coisa, brincando com aqueles ao seu redor, deixando outros levarem a culpa, deixando que alguém se sinta no poder, para no fim revelar-se o verdadeiro poderoso. Revelar que o seu discurso sensível era simplesmente hipocrisia, ele não é capaz de mudar, não está interessado também, e vai repetir, e repetir o ciclo sempre que precisar se satisfazer, afinal um homem nunca está pronto para assumir um compromisso, especialmente um homem que se sente um deus.

Então temos a situação de Devon, uma mulher que é totalmente frustrada por dedicar sua vida, que foi arruinada, para cuidar do pai, um pai que nem sequer pode assumir responsabilidades paternas, a fazendo ter que criar a irmã e a si mesma, e em determinado ponto, até do próprio pai. Sua vida foi ceifada desde o princípio.

Michaela, uma mulher que veio do nada, e que outrora foi uma bela figura que despertou a atenção de um bilionário, e diante disso ela recebeu tudo aquilo que poderia querer, e tinha o mundo aos seus pés, de tal modo que ela até parecer estar hipnotizando as pessoas, que no fim não passam de um bando de abutres, ou melhor albatrozes, esperando o próximo corpo que irá boiar para que eles o consumam, enquanto há tempo. Michaela se torna o próximo experimento de seu marido, que antes fora marido de outra mulher, abandonada para ser substituída por Michaela. E é claro que como os funcionários não podem direcionar sua raiva aos desejos absurdos de uma deusa para ela, sobra para a sua assistente pessoal, sua porta-voz.

Simone, a porta-voz de Michaela é quem cuida de tudo, ela é perfeccionista ao extremo, pois é muito focada. Abandonou sua antiga vida, pois tinha uma determinação, ela queria vencer. Ela não queria ser uma fracassada, ou seja lá o que for. Mas a princípio, ela não queria simplesmente ser como a própria irmã, então abandonou tudo. Como assistente de Michaela ela é responsável por a bajular, suprir seus desejos e fazer com que suas ordens sejam cumpridas, então tudo que a madame precisa, ela repassa aos funcionários da propriedade, que é claro, unem forças e o ódio contra ela, o elo frágil, pois acima dela tem os poderosos que nada devem a ninguém, e abaixo tem os funcionários, todos recebem menos que ela e fazem mais do que ela (visão dela), o que a torna isolada no meio.

O grande plot de Simone é que no fim das contas, embora ela quisesse ser diferente da irmã dela, quando tudo acabou por dar errado, ela demonstrou ser exatamente como a irmã. A irmã, Devon, sentiu que tudo estava afundando e foi atrás da Simone, mas mesmo com aquela vida de luxo, ela ainda queria simplesmente voltar para casa, não por uma bondade, ela só era capaz de perceber que algo ali estava errado, mesmo não sendo exatamente como ela imaginava, mas Simone não achou isso, ela pensou que Devon tinha ido arruinar a vida que ela tinha construído. O final, Simone tinha se afastado de um homem tóxico pois não queria que ele suprimisse sua vida, e ela pensou ser diferente, ela queria vencer por ela mesma. No fim, quando tudo da errado em seus planos, a opção que lhe resta é ceder às garras de um homem. Não é o pai que lhe consumia, que lhe tratava como um nada, mas sim um marido que vai lhe consumir e no fim lhe tratar como um nada, exatamente como fez com Michaela e a esposa antes dela.

Quase como um mito do pescador que saiu para pescar mas encontrou sua sereia, vemos uma cena de Peter, o marido, indo pescar, e fisgando aquela que seria a próxima sereia que ele levaria para casa.

 

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