Nota: Este texto pode conter spoiler, se visto da perspectiva que analisa algumas questões do filme, enquanto faz reflexões em cima do que foi visto. Quando escrevi ele, eu não estava pensando em analisar visualmente, mas minhas considerações é que este filme é um espetáculo, e que o visual é definitivamente muito impactante. Eu agradeço a Chloé Zhao e sua equipe por isso. A seguir, reflexões, minhas, independente de se você considerar isso um Spoiler ou não.
Eu já tinha a sensação de que este seria um daqueles filmes inesquecíveis, um daqueles que ficam na gente, e um daqueles que fica em mim. Adiei por muito tempo, estava esperando ter a chance desse filme vir para o cinema da minha cidade, mas quando finalmente percebi que não aconteceria, que foi hoje, decidi que o momento havia chegado. Acima destaquei uma imagem sublime, um frame logo do início do filme onde Agnes (Jessie Buckley) está deitada entre as raízes saltadas de uma árvore que mais parece com uma vagina. Quase como se o filme estivesse dando à luz à figura principal de toda essa história. Agnes é uma mulher que emana poesia, fruição. Seus conhecimentos, suas filosofias, o que ela carrega é profundo e lindo, e belo. Agnes está ali, prestes a ser dada a luz, saindo de um lugar intocável, para um mundo cruel.
Enquanto eu assistia a este filme desenvolvi dois questionamentos reflexivos, o primeiro era sobre qual seria o sentido da vida se você não a vive com integridade, se você não pode desposar dela. E isso muito se vem devido ao fato do personagem William, não poder ficar com os filhos. Ele era um homem muito livre que era até tratado por vagabundo, um homem que vivia pelas suas normas, e de repente uma família exigia que ele tornasse-se um "homem" na régua da sociedade, e nos olhos de Agnes, tudo que eu podia ver era "qual o sentido da vida se você não a vive", e por anos deveríamos estar assolados com esta dúvida terrível, o tempo todo, questionando-nos quando teremos um pouco de dignidade, quando finalmente viveremos uma vida integral, uma vida que nos permita deitar entre as raízes saltadas de uma árvore, uma vida que não nos obrigue a ficar distante daqueles que amamos, uma vida que não nos faça nos afastarmos, ou destruirmos aqueles que amamos.
Cidades surgem, que formam sistemas, que prometem dignidade, que prometem proteção, que te cobram em troca da saúde, da segurança, enquanto na verdade é tudo hipotético, nada disso é garantia, então por que nós as sustentamos? Se a vida é uma constante ameaça então por que simplesmente não vivemos a integralidade dessa ameaça até que no fim isto acabe? Há uma super romantização de como a vida deve ser levada, mas na verdade, é tudo uma mentira, mentiras inventadas há tanto tempo que nem ao menos sabemos quem foi (Eu escrevo sobre isso em meu livro de ficção que também não sei quanto tempo levarei para terminar).
Em Hamnet, William perde o filho, não pode nem ao menos se despedir enquanto ele ainda estava vivo, sua esposa Agnes não consegue aceitar que o "papel do homem" que William cumpria era tão violento, que não o permitiu viver os últimos momentos do filho, mas o culpa. É claro que ela odeia aquilo, mas o culpa por se submeter a isso e por não estar lá, e é a partir disso que surgem as reflexões que darão origem aos sentimentos da obra Hamlet de William. É onde William irá retratar como é seu luto, como é se sentir incapaz, e como no fim, apesar de tudo, fica um completo vazio.
Nesta cena, onde William da as suas falas no palco, contracenando com o ator que faz Hamlet, ele como o pai morto de Hamlet, um fantasma, que Paul Mescal chora e sorri, e uma outra reflexão surgiu, chorar e sorrir estão tão próximos um do outro quanto estão distantes. É algo que é preciso desenvolver melhor, mas a princípio, quando você chora você grasna, geme, soluça, grita, quando você ri, você sorri, grita, grasna, ronca. Quando está chorando tudo parece tão ridículo que de um momento para o outro você pode começar a sorrir. Essas atribuições de chorar e sorrir são algo que inventamos, tanto quanto a cidade, ou o papel do homem, tanto quanto os sistemas. Chorar e sorrir são humanos de modo que não há como separar, e não há por quê. Quando se está irritado você pode chorar, mas também sorrir. Chorar está para o sorrir não como a tristeza para a felicidade, os sentimentos não estão relacionados aos atos de chorar ou sorrir, os atos são espontâneos e particulares, os sentimentos são muito mais facilmente decifráveis. Quando eu estou triste eu choro, mas também posso chorar quando estou feliz. Chorar e sorrir estão lado a lado como dois irmãos gêmeos, como vida e morte, não são contrários, são iguais, mas com diferenças de perspectiva.
No fim, após aquelas cena super emocionante de Hamlet morrendo no palco, vemos no encerramento, a resposta para o luto de Agnes. Quando o Hamnet pergunta para a mãe sobre o futuro, já que ela tinha aquela clarividência de tocar nas mãos de alguém e ver seu futuro, ela diz que ele era forte, crescido, em Londres, trabalhando com o pai, William, no teatro, e a criança pergunta o que estava fazendo no teatro, e a mãe diz "O que você quer fazer", ele diz que quer ser um dos atores, com uma espada, enfrentando o oponente em cena.
Para mim, eu achei que ela estivesse inventando, meio com a questão de que eu já tinha para mim que o filho iria morrer, isso, acredito é parte da sinopse (apesar de nada te preparar para a cena quando isso acontece), mas a verdade é que ela estava vendo de fato aquilo acontecer, pois a resolução para as perguntas de todos sobre para onde vamos quando a vida acaba, ela irá encontrar apenas mais para frente, na peça. Posso imaginar como ela ficou sem entender nada, quando sua intuição lhe disse aquilo, mas na realidade, seu filho agora estava morto, era, para ela, inacreditável. E então, no fim, enquanto assistia a peça do marido, ela vê o jovem ator interpretando Hamlet, e quanto o personagem morre no palco, atrás, a criança, Hamnet, está diante de um arco que leva para os fundos do palco, aquele era o fim da peça, bem como foi o fim do filme.
Como poderia Agnes enxergar no futuro do filho Hamnet, uma peça que nem poderia ocorrer se ele tivesse continuado vivo. De repente lá está ela, diante da resposta, e William também a encontrar. Hamnet não foi para o céu, ele apenas foi para o fundo do palco, para o backstage, esperar para interpretar o próximo papel, para onde todos os atores vão quando termina seu papel naquela peça. Como poderia vida e morte ser sequencial, e não complementos, iguais, mas diferentes, quando para Hamlet existir, precisou de Hamnet deixar este mundo? Algumas perguntas são muito difíceis, então é mais fácil alegorizar suas respostas. Um palco. Atores. Os fundos. Subimos e descemos do palco, trocamos de papel. O palco continua lá, esperando para nós subirmos novamente.







