Quando eu estava nas minhas férias antes de entrar no ensino médio, eu ainda tinha treze anos, iria fazer quatorze em breve, eu conheci novas pessoas. Eu tinha uma amigo chamado T, e ele tinha um amigo chamado J. O J tinha uma família muito interessante, uma família unida e completa e estruturada, e que claramente apoiava e incentivava cultura nos filhos, mesmo sem serem ricos, sem serem classe média. Eles davam o melhor para os filhos deles sendo classe baixa, algo semelhante ao que minha mãe fez solo, e os pais do T também fizeram, mas era outro nível. J tinha muitos gibis, muitos mangás, ele desenhava incrivelmente, e devia ser uns 2 anos mais novo que eu. O J tinha um irmão mais novo, e uma irmã mais velha, essa irmã mais velha tinha uns 16 anos na época, e ela vivia justamente no boom das distopias adolescentes, sendo uma adolescente, e ela tinha absolutamente todos os livros que você possa imaginar que o ano de 2014 tinha para ofertar. Mas eu não conheci Divergente através dos livros, ela conheceu, mas ela me apresentou essa história mesmo foi pelo filme.
Divergente tinha lançado no início daquele ano e eu nem tinha ouvido falar, mas ela sim, e certo dia, enquanto eu falava com ela sobre minha obsessão em Jogos Vorazes, me indicou este filme, e eu encontrei ele pirateando pela internet, e meus amores, foi amor à primeira vista.
Divergente tem uma estrutura muito interessante que é essencial para captar um público, ele quer que a sua personalidade seja valorizada. Ele quer criar intimidade com você a partir do que você é. Algo semelhante às casas de Hogwarts, temos as facções, e cada facção representa um pouco da personalidade dos membros, e pessoas Divergentes são aquelas que não se encaixam em apenas uma facção, que elas tem traços de outras. Pra esclarecer temos Abnegação, Audácia, Erudição, Amizade e Franqueza. Os nomes são autoexplicativos. E em primeiro momento você fica pensando: Mas não é normal todos nós termos mais de um traço? Sim, obviamente. Mas nessa sociedade não, todos tem apenas um único traço, e se não tem eles são Divergentes. Aqui temos uma estado que não é que seja totalitário, mas ele é, afinal se você não se encaixa em nenhuma facção, você morre.
A protagonista, Tris, nasceu na Abnegação, mas ela vai parar na Audácia após a cerimônia de escolha.
Antes dessa cerimônia eles passam por um teste que determina COM CERTEZA a sua facção, e até se você é Divergente. Acontece que a Tris é Divergente, mas a mulher que faz o teste dela se compadece, e fala pra ela sair de lá dizendo que é da Abnegação. O teste da Tris dizia que ela era Abnegação, Audácia e Erudição, se não me engano, ou seja, Divergente. A mulher registra que ela é da Abnegação, mas mesmo assim, a Tris, na hora de escolher, escolhe Audácia. Isso obviamente coloca nela os olhares. Primeiro que, se escolhe uma facção a qual não pertence, e se dá mal nela, ela vira uma Sem-Facção, que é tipo uns mendigos, cujo o único apoio vem do povo da Abnegação, por motivos óbvios. Mas se ela escolhe uma facção diferente da do teste, e se dá bem, significa que tem algo de errado. Era pra ela se dar mal, afinal no teste dela está dizendo "Abnegação" e não "Audácia". E é aí que começa-se a criar a trama.
Enquanto Tris se sai super bem na Audácia, vai começar a sem investigada, e essa investigação repercute nos seus amigos, nos seus familiares, até o ponto que se desenrola em um plano, onde a Erudição toma o poder da cidade, utiliza a Audácia como soldados para impor suas vontades, tentando dar um golpe de estado. Antes a Abnegação era quem liderava a cidade, por motivos óbvios, uma pessoa que Abnega seus bens em nome do coletivo, protege melhor os direitos do coletivo. Mas daí há umas informações suspeitas contra o líder da Abnegação rolando, e a líder da Erudição arma esse golpe.
Falando assim temos uma história muito interessante, com uns mistérios, questões políticas a serem discutidas, e de fato, para um adolescente, um pré-adolescente, é tudo encantador. Além disso tudo ainda tem um romance que rola, pra prender a atenção da galera, o problema é que a estrutura criativa da história é fraca.
Veronica Roth é uma escritora muito inferior, que tenta surfar na onda de Jogos Vorazes, mesmo sem ter a qualidade criativa e de escrita de Suzanne Collins, autora de Jogos Vorazes, então, a proposta do primeiro livro, mesmo que ele não seja excelente, é boa, mas as decisões que justifiquem os dois próximos livros - já que a moda era as Trilogias - são injustificáveis. A sensação que deu é que ela teve a ideia base, mas não pensou em como justificaria tudo aquilo no futuro.
Como justificar a organização daquela sociedade que vive ali cercava sem sair de lá, e tem os mistérios envolvendo isso. E por que eles matam divergentes, e quais monstros vivem do lado de fora do muro. Enfim.
Insurgente, o livro seguinte é uma transição terrível, sem justificativa alguma, que não esclarece nada, que apenas estende - e muito - a resolução medíocre que só irá acontecer em Convergente.
O ponto de partida é legal, cativante, mas ele não é seguido por um trabalho criativo por parte da própria autora para que justifique toda a sequência. Veronica Roth não sabia onde exatamente a história iria parar. Talvez ela tivesse a pretensão, mas não possuía os meios para chegar àquilo, e isso explicar por que o segundo livro é tão medíocre, e em consequência o seu filme.
Nota: o livro "Quatro" é basicamente o primeiro livro, só que da perspectiva do personagem Quatro, que é par romântico da Tris.
Os Filmes
O primeiro livro faz um bom trabalho na minha opinião. Mesmo assistindo hoje em dia ainda acho um bom filme, mas é vergonhoso até comparar com outros primeiros filmes tipo Jogos Vorazes, e Maze Runner - apesar de eu preferir Divergente a Maze Runner, a qualidade entre eles é notória. Tanto em roteiro, quanto em atuações, escolhas criativas, mas fazer o que se o livro já não era grandes coisas. Mas minha sugestão é: pare no primeiro livro/filme. Você não precisa dessa conclusão.
O problema começa no segundo filme, que DESESPERADO para dar algo ao público, já que o livro não dá nada, precisa fazer um monte de escolhas de roteiro, que entregam sim, ação, ao menos, mas que seguem não fazendo nada pela trama, segue sendo um livro de transição para a conclusão. O segundo livro é muito ridículo e entediante, pois apesar do último ser medíocre, ele nos entrega novidades. No segundo apenas temos a mesma coisa do primeiro, só que sem o toque charmoso das descobertas.
Em audiência, esses dois já não foram bons, mas o segundo foi muito pior, e como o segundo filme foi horrível, cria-se um estigma no público, de que talvez o próximo filme seja ainda pior. Mas de alguma maneira, o estúdio decidiu dividir o último filme em DUAS PARTES. Uma escolhe IMBECIL, completamente. Convergente é HORRÍVEL. O terceiro livro não tem conteúdo nem pra um filme inteiro, quem dirá dois. E o pior, Convergente tem um gasto absurdo com CGI, e acho que o filme nem se pagou, e por isso nunca tivemos a Parte 2 lançada.
A protagonista, Shailene Woodley, que faz a Tris, tinha um contrato pra uma Trilogia de filmes, e ela gravou a trilogia, AFINAL É UMA TRILOGIA DE LIVROS. Mas devido a todo o caos, e o fracasso, ela inclusive já se negava a voltar para um filme final, provavelmente voltaria mediante um acordo, mas isso incluiria mais gastos, e Convergente não poderia dar-se ao luxo de ter mais gastos, já que a Parte 1 mal se pagou. E bom, foi cancelado. Eles até chegaram a falar que iriam fazer uma série para TV com a resolução, mas isso não rolou. Shailene Woodley muito menos estaria disposta a voltar para uma série, e ela estava certa, aquele foi o auge de sua carreira, com A Culpa é das Estrelas, e ela tinha propostas muito mais interessantes por vir, mas a culpa de não rolar não era dela. O estúdio se poupou, depois de cometer todos os erros possíveis.
O terceiro filme... assim, é um acontecimento mesmo, sabe. Ele é vergonhoso. Ele é horrível. E eu acho que posso dizer que o estúdio não precisava ter gasto tanto que gastaram com CGI. É basicamente tudo de CGI nesse filme, e é ruim. Um CGI ruim! E enquanto eu lia o livro, eu não sei se é pela falta de técnica de escrita da autora, em descrever o nível tecnológico da sociedade, ou se realmente o filme escolheu ser ridículo dessa maneira, mas para mim eles não tinham essa tecnologia super avançada que é mostrada no filme. Era uma coisa mais underground, mais normal. Era avançado, mas ainda parecido com o que temos, e no filme são umas naves voadoras redondas, uns super prédios frutiger aero, uma coisa meio Utópica, pra destoar das cidades do primeiro filme, que eram ruínas. Enfim. Terrível escolha artística, já que a resolução e justificativas eram medíocres.
Agora vem um spoiler do final, já que não temos filme dele, no próximo parágrafo.
Aquilo era tudo um experimento de uns caras poderosos. Ou seja, eles tinham várias daquelas cidades
do primeiro filme, e o experimento consistia em todos na cidade serem Divergentes, e livrar o mundo desse gene único, que acho que foi resultado de uma guerra que rolou a muito tempo, onde tentaram fazer uma dominação com base na segregação, sei lá, eu também não lembro muito bem, mas os poderosos chegaram à conclusão de que o mundo só teria paz se pegasse o povo, colocasse nessas cidades, falasse "Olha os Divergentes são proibidos", para terem cada vez mais divergentes (Seja lá por que isso aconteceria enquanto você mata os que são divergentes), e assim que a cidade tivesse um número de pessoas curadas, a verdade seria revelada, sei lá. Ou quando um divergente assumisse o poder. Gente, eu não lembro bem, e o fato é que isso realmente não faz diferença. A questão toda é que é uma justificativa terrível, mal feita, mais pensada, e é claramente resultado de uma autora que teve a ideia para uma sociedade INJUSTIFICÁVEL para iniciar uma saga, mas que não pensou como justificaria isso no final.
É por isso que chega ser pecado comparar Divergente com Jogos Vorazes. A semelhança é fazem parte de um hype da época, mas Jogos Vorazes é movido por questões filosóficas que a própria autora crê e desenvolve em cima, questões que permeiam nossa sociedade até os dias atuais, e é por isso que seguimos com novos lançamentos de Jogos Vorazes, pois a sociedade segue dando motivos para pensarmos até onde vai sua manipulação e crueldade. Se Veronica Roth acreditasse no que escreve, quisesse passar uma mensagem com sua escrita, ou mesmo soubesse como fazer algo que entretivesse, ao invés de apenas revelar sua mediocridade, talvez Divergente não fosse tão ruim. Essa história segue algo semelhante a Maze Runner de James Dashner, nisso elas são bem mais semelhantes do que com Jogos Vorazes, nenhuma das duas acredita no que quer passar com sua história, e por isso não possuem uma justificativa plausível. Mesmo assim, Maze Runner sabe entreter, propondo desafios diferentes a cada livro, e uma dose dramática bem mais elaborada, mas o seu primeiro filme é o grande destaque (Em Divergente também, mas não dá pra comparar também, mesmo eu já tendo dito que prefiro Divergente, o primeiro filme de Maze Runner é mais instigante de fato).
Quando se escreve uma história sem alma, ela é uma casca do que poderia ser. Divergente poderia ser incrível, se no fundo, a autora acreditasse que o que ela estava escrevendo revelaria-nos algo. Não se escreve histórias de revolução se suas bases filosóficas para essa história simplesmente não existem. O que você quer nos contar com isso Veronica Roth? O ser humano é terrível? Sim, já sabemos, mas se quisermos ler sobre uma fantasia disso podemos ir até Jogos Vorazes que tem bases sólidas, tem alma, tem qualidade, e tem mensagem por trás, não é um simples entretenimento, isso sim gera reflexão. Jogos Vorazes não tem medo de discutir seus temas, pois acredita neles, e quer gerar reflexão sobre eles. Divergente é realmente só entretenimento e da pior qualidade. Você não vai ficar pensando por que a sociedade faz isso, você vai ficar pensando: Hm... bom, acabou. Vamos agora ler um outro livro. Seja ele qual for.
A única reflexão que este livro/filme nos gera é de como ele foi terrível, e como ele tenta ser algo que não é, e bem, podemos tirar algo disso: Não escreva sobre revolução se você não tem algo revolucionário a ser dito. Se você não deseja criar revolução de pensamento através disso. Os livros para entretenimento deve existir, mas não disfarce seu livro de entretenimento em uma mensagem, nós vamos perceber.
Nota final:
Meu carinho por Divergente, especialmente o Filme, e apenas o primeiro, continuam, e provavelmente durarão para sempre. É um filme que eu revisito vez ou outra, e verdadeiramente adoro, é como eu disse, ele tem um talento em gerar em você uma sociedade que você gostaria de ser incluído, entrar em um grupo, com pessoas como você, e a trama ao redor disso também é instigante. Mas bem, podia ser só isso. Nem tudo é pra gerar um reflexão além, e talvez todas as reflexões que precisássemos pudessem ser formadas com uma única história, de um único livro/filme. Nós não precisamos justificar se não temos justificativa.
Apesar disso eu era muito fã. Me lembro de ficar parado, esperar o cinema abrir, para ser o primeiro a comprar o ingresso de Insurgente e poder receber um dos Pôsteres que eram dados aos primeiros da fila. Eu tenho esse Poster até hoje, e eu não odeio Insurgente, não odeio Convergente, reconheço que são bem ruins, mas o carinho continua, e eu com certeza reassistiria todos eles. Como um filme genérico funciona, mas eu não compraria os livros, talvez apenas o primeiro, que é realmente bom, assim como o filme. Veja, eu disse "bom", e não excelente.
De toda forma, eram temos mais simples, a adolescência.





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