quarta-feira, 24 de junho de 2026

Mentiras que Contamos



Eu li este livro já tem um bom tempo. Pra falar a verdade não me recordo exatamente se foi em 2024 ou 2025, mas hoje, em 2026 eu assisti ao filme que adapta - ou tenta - a história do livro, Lie With Me (2022).

Devo admitir que eu chorei, na verdade isso não é exatamente mérito do filme, eu choro muito facilmente mesmo, mas em especial, chorei por que o filme me lembrava o livro, que é muito mais impactante e emocionante. Eu na verdade acho que este filme corta 50% de toda a emoção que essa história pode proporcionar ao longo dela e no final, por algumas escolhas horríveis, que a mim, na verdade, me parecem ter sido feitas como uma tentativa de fazer uma história baseada na do livro, ao invés de adaptar concretamente o livro.

Na totalidade das coisas, o livro é adaptado nesse filme, porém, a escolha de focar tanto tempo em cenas absolutamente inúteis mostrando a versão velha do protagonista, é o que mata esse filme.

Para essa história te pegar com jeito mesmo (ela vai pegar de qualquer forma) você precisa de um vínculo especial com os personagens, precisa entender a construção de um romance. Na conclusão do filme, a carta final cita coisas que simplesmente não vimos construídas em tela, pois o filme perde tempo mostrando o velho indo pra lá e pra cá, ao invés de focar no dia a dia de sua versão mais jovem, apaixonada, perdidamente, e confusa por não saber o que fazer diante de um par romântico que não expressa os sentimentos. Então como o filme decide não desenvolver essa relação e os detalhes, e a intensidade dela, fica parecendo, o que realmente é retratado pelo filme, flashs vagos de memórias específicas, sendo que no livro, isso é grande parte da narrativa.

A escolha do filme parece ser em focar em desenvolver o filho do Thomas, e como vai rolar essa revelação dele para o protagonista (que eu me recuso a escreve aquele nome complicado, mas saibam que ele é basicamente o Philippe Besson, autor do livro). Eu queria que eles tivessem adaptado grande parte do romance juvenil com flashs para o futuro, mostrando que o Philippe está pensando, que essa memória retornou a ele após o encontro com o filho do Thomas, isso sim seria uma escolha assertiva, no final nós nos emocionaríamos muito mais. No filme não temos o desenvolvimento da relação do Philippe com seus familiares, que é super diferente da de Thomas com os seus, e isso tudo impacta na resolução final, afinal, Philippe tinha uma liberdade maior para se expressar, ele não sofria a mesma pressão de Thomas, mas nós não sabemos disso com o filme.

 Deixando o filme de lado agora, falarei um pouco mais sobre como este livro é impactante. Antes devo dizer que quando eu li este livro não me toquei que era uma história biográfica, acho que não me prendi ao nome do autor, nem nada disso, e a dedicatória no início, não ficou óbvia para mim até que eu terminasse, eu jurava que estava lendo uma ficção. Quando estava terminando a história me dei conta de que era sobre a vida do autor, enfim.

Acho bizarro que uma história tão crua seja um reflexo perfeito da realidade justamente por que ela é. Ela não possui polidez. Em diversas nuances posso dizer que me identifiquei com os personagens em instâncias além da sexualidade, mas com o fato de Thomas ser filho único, e essa constante de que você está acabando com a sua família se for homossexual, afinal você é o filho único. Apesar de ter lido a muito tempo, ainda consigo sentir a angústia de visualizar aquele homem que não conseguia se aceitar, aceitar que não precisava fingir ser alguém, na verdade, negar que amava a outros homens, uma vergonha, ou um... não sei. Eu acho que o mais assustador desse livro é essa violência que não consigo arrumar uma palavra que defina. Isso não é simplesmente medo, isso é uma prisão na pele. É um vazio eterno, uma negação intermitente, são lapsos de se encontrar sentindo aquilo, e negar que estar sentindo, por um período tão longo de tempo, e uma vida tão longa de privações dos desejos. É uma vergonha tão absoluta que ela não ousa falar, não mesmo, em momento algum ela ousa dizer que ama outro homem, ela te destrói, e você quer muito dizer, mas tudo o que consegue fazer é deixar escrito, deixar registrado que você se lembra, que não foi só um momento, que não é passageiro, que uma pessoa permaneceu com você por... 30 anos, e você não conseguia fazer nada a respeito, a não ser um último recado. Ele queria se libertar daquilo, ele queria que soubessem, e por isso ele deixou uma carta. Mas é dilacerante essa sensação que fica, por um homem que tinha uma vergonha - ou medo - tão grande que só conseguiu falar sobre sentimentos quando sabia que não teria ninguém o olhando e o julgando.

A construção - perdão. Não é construção de um personagem. É uma pessoa real. O que queria dizer era: Ao longo da história nós somos apresentados a este rapaz que não consegue dizer seus sentimentos. Nenhum deles. Ele não sabe dizer, apenas sentir. E é devastador quando chegamos ao fim e nos damos conta de que o autor tinha aquela sensação, de que Thomas tinha deixado ele tirar uma foto dele - mesmo sempre negando anteriormente - por que ele, o Thomas, tinha certeza de que não o veria novamente. Enquanto Philippe acreditava que em algumas semanas se reencontrariam, Thomas já dizia que não, apenas ficando parado, não virando a cara, ou avançando para empurrar a câmera, apenas deixando que Philippe o fotografasse. Ele passou a história inteira respondendo ao que sentia apenas com atitudes. Ele beijava para não falar. Ele transava para não falar. Ele enquadrava na parede, entregava bilhetes, passava a mão, não ousava direcionar o olhar, tudo isso era ele mostrando os desejos, os sentimentos falarem, mas sem que ele nunca precisasse assumir. O fim estava lá o tempo todo, quando ele parou, posou. Não consigo chamá-lo de covarde por não conseguir nunca se abrir. Não posso chamá-lo. A tempestade dentro dele era algo tão sombrio, o resultado sombrio da nossa sociedade. Não é responsabilidade dele. Assim como não é de nenhum de nós.

 

     Orgulhe-se. 


 

 

 

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