sábado, 14 de junho de 2025

Echo Valley: Um filho que se perde no vício é como um eterno regresso ao luto.

 

Não é novidade para ninguém que Apple TV+ tem uma curadoria da qualidade absoluta que garante que tudo que você encontra no catálogo do streaming será satisfatório e muito bem produzido. Echo Valley é um exemplo. Eu não planejava falar deste filme isoladamente, mas sim dos últimos trabalhos de Julianne Moore, este estaria incluso e eu faria pequenos resumos com opinião, mas eu não estava preparado para a reviravolta que este filme ia me oferecer.

Echo Valley tem um início bem interessante, e você pode até pensar, como me ocorreu, que no meio ele acaba abrindo mão de um suspense psicológico que seria de roer os dentes, envolvendo uma culpa que a protagonista estava sentindo, já que ele coloca um obstáculo físico, presente em cena para ser enfrentado, mas então tudo se explicar quando chegamos no final, pois sem a presença deste obstáculo, a reviravolta não aconteceria. E aliás, pelo filme ser desta maneira ele ainda abre brechas maiores para discutir o tema do luto mais profundamente, graças ao final, e levanta uma reflexão sobre luto pelos que se foram, mas por aquelas pessoas que mesmo ainda vivas, são como se já estivessem mortas, mas que a lembrança não vai se tornar uma saudade nunca, pois elas vão sempre estar ali, de novo e de novo para te lembrar que tudo podia ser diferente.

A partir de agora farei um breve resumo e se você não quiser spoiler, leia apenas o parágrafo seguinte, pois ele será tipo uma sinopse, e em seguida vou aprofundar nas minhas visões já com spoiler.

Echo Valley vai rodar ao redor da personagem Kate (Julianne Moore), que perdeu sua esposa recentemente, e a filha, Claire (Sydney Sweeney), que é viciada em drogas, retorna para casa após se desentender com o namorado que é vendedor de drogas. Isso não é spoiler, mas em determinado ponto da história, Claire e seu namorado vão se meter em uma confusão e a garota volta para casa suja de sangue, e trazendo o corpo do namorado em seu porta-malas. A mãe que, mesmo diante de tudo, é muito apaixonada pela filha e realmente, sempre acredita que ela está disposta a mudar, então, decide que precisa fazer de tudo para acobertar novamente a cagada dela.


 Quando vi esta sinopse não foi por opção. Eu prefiro ir a um filme sem saber nada dele, mas definitivamente não pude fugir desta, então minhas teorias sobre o filme eram de que se trataria de um drama psicológico entre a mãe não sabendo se a filha matou de propósito ou foi acidental. Estava enganado. Uma das primeiras reviravoltas é de que na verdade o corpo não era de quem ela tinha dito ser, e que na verdade aquilo tudo tinha sido mais um plano da filha drogada para conseguir que a mãe limpasse sua bagunça. A Claire não apenas é super cínica, como ela não alimenta nem um pingo de empatia pela própria mãe, e qualquer arrependimento por estar dando trabalho à mãe, ela segue afogando nas drogas. Ela usa a mãe e debocha dizendo que a sua mãe faria qualquer coisa por ela, inclusive se livrar de um corpo e quaisquer provas que lhe incriminassem.

Filmes que trazem personagens viciados em drogas são sempre uma confusão mental, nós, e os a redor (neste caso a Kate), queremos acreditar que eles estão mudando, que é o certo dar uma segunda chance. Bem, então a mãe dá uma segunda chance, e a filha a decepciona, então uma terceira chance, e novamente, e então uma quarta. Acho que no final do filme, a última cena, deixa subentendido que Kate vai dar uma quinta chance à filha.

Mas o que eu gostaria de focar é justamente no final do filme.

Durante todo o tempo nós retornamos ao celeiro, e ele é como uma representação, uma eterna lembrança, um objeto físico onde Kate retém seu luto pela esposa. Era o celeiro da esposa dela, tem os vídeos antigos, tem as coisas, todas as lembranças, mas no final mesmo tendo sido duro para Kate, incendiar tudo aquilo, ela parece que sente um alívio. O filme demonstra como se finalmente, após nove meses, ela fosse conseguir seguir em frente. Tudo que ela guarda é uma mensagem de voz da sua esposa morta, que ela ouve constantemente, e agora sem o celeiro, este é um último vestígio que ela permite-se ter, para lembrar da voz da esposa, uma voz feliz, um momento feliz.

O curioso dessa cena é que ao longo do filme somos apresentados a diversos trechos desta mensagem de voz, ou talvez sejam mensagens de voz diferentes, de todo modo, neste último áudio, Kate ouve também a voz de Claire, pois sua esposa tinha ido buscar a Claire na clínica de reabilitação, da última vez que ela foi para lá, e dessa vez parecia que tudo ia ficar bem. A família ia estar completa, Claire parecia bem, e a esposa também estava bem feliz e esperançosa.

Este último áudio me passou a sensação de como se aquela Claire também tivesse morrido. Na verdade, aquela Claire já usava drogas, ela tinha recebido uma nova chance, mas depois desse áudio a realidade muda, Claire volta para as drogas e a esposa de Kate morre. Kate está sozinha, e o último vestígio de vida de sua esposa e filha é um áudio, isso por quê sua esposa, realmente partiu, e dessa vez ela está finalmente seguindo em frente, como a cena do celeiro nos indica, ela a deixou partir, porém sua filha, embora morta, está viva, ela não vai mudar, então se torna um processo de luto constante, um retorno eterno ao perder a filha, e superar quando ela retorna e tudo parece ficar bem, como no áudio, e então perdê-la novamente.

Kate perdeu a esposa, e isso é definitivo, mas sua filha viciada em drogas é um fardo a ser carregado para sempre, é um áudio feliz a se ouvir por alguns dias, e então ficar mal novamente, pois ela partiu, pois ela é viciada e não quer se tratar, e não consegue parar por conta própria. Enquanto Claire estiver viva, como o celeiro, então este luto pela perda de uma filha será eterno. E será mesmo, visto que, como disse, a cena final nos indica que Kate vai fazer novamente o que ela sempre faz, abraçar a filha quando ela retorna desamparada.

Tudo bem, o final não mostra exatamente, mas a construção da personagem nos diz isso. É a filha pela qual ela desovou um cadáver, por que ela pararia de tentar depois disso? Ela já atingiu o extremo, e como parte do seu processo de luto pela filha, a única coisa que ela pode fazer são aproveitar os falsos momentos enquanto o celeiro ainda está de pé.


 

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