Essa semana maratonei a primeira tempora de I Told Sunset About You, uma série Tailandesa de drama e romance, criada pelo excepcional Naruebet Kuno, uma pessoa que é tão genial na escrita de personagens e narrativas que consegue deixar 98% dos outros profissionais do ramo no chinelo, e eu posso dizer isso com certeza, e sem limitar a nichos das produções asiáticas, aqui eu falo do mundo inteiro, este homem é absolutamente incrível no que faz. E aqui, Naruebet Kuno também significa uma figura expressiva na produção de conteúdo relacionado à comunidade LGBTQIAPN+, com obras realmente deslumbrantes. Dessa vez, resolvi falar de I Told Sunset About You, mas apesar de a história ser de romance, vou pontuar algo que me deixou com um pé atrás o tempo todo, com uma pulga atrás da orelha na verdade, e eu tenho certeza que isso não é por acaso.
Essa série tem duas temporadas, denominadas parte 1 e parte 2, aqui, estarei falando da parte 1, pois ainda não assisti a parte 2, portanto se estes assuntos são desenvolvidos nela, perdão, essa é a visão de alguém que viu apenas a primeira parte.
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| Teh |
Breve resumo da história, e com imagem para ilustrar. Ao lado você pode encontrar imagens dos dois personagens principais, Teh e Oh-aew. Oh-aew é um garoto de pele clara cujo a família é bem rica, dona de um resort, no qual, se ele não conseguir entrar na faculdade, ainda poderá trabalhar e ter um futuro promissor e rico, fora isso ele é bastante mimado, mas acima de tudo ele é desleixado, ele não gosta de estudar, não se preocupa com isso. Teh, por outro lado é um menino de pele marrom, ele é
pobre, vive com a mãe e um irmão mais velho em um restaurante da família, é muito dedicado aos estudos pois desde sempre queria ser ator, pois ele tem um sonho, o sonho de interpretar um personagem de uma peça clássica chinesa, o protagonista cujo o nome não irei me lembrar. Teh é simplesmente apaixonado pela ideia de ser esse personagem, desde criança. |
| Oh-aew |
Quando ainda criança, uma professora da escola decide recriar a peça/filme, e uma versão menor para um espetáculo de ano novo chinês, essa professora seleciona Oh-aew para ser o protagonista, mesmo o garoto não sendo um bom aluno, e mais para frente não sabendo decorar as falas, que por sinal eram em chinês. Teh sabia absolutamente todas as falas, trejeitos, aprendeu chinês, mesmo assim, o colega ficou com o papel. Naquela ocasião ele apoiou que o amigo aceitasse a escolha da professora, pois era um bom amigo, mas claro que ficou sentido por não ter sido o escolhido, aquele era seu sonho. Apesar disso, ajudou o amigo a ensaiar, e quando Oh-aew esqueceu as falas no meio da apresentação, ele as gritou de lado para salvar o amigo daquela enrascada.No final, Oh-aew chega com uma notícia, a professora falou que adorou a apresentação, e que ela queria repeti-la em breve, e queria que Oh-aew fizesse novamente o protagonista. Ele aceitou, e depois disso, contou ao amigo. Além disso, Oh-aew que sempre foi confuso sobre o que queria fazer no futuro, trocando de hobbie todos os dias, declarou que queria ser ator, e Teh sentiu-se usurpado.
Eu compreendo. Ele ficou feliz pelo amigo uma vez, o apoiou, o ajudou, e o salvou, e mesmo apesar de tudo isso, Oh-aew foi completamente egoísta e nem sequer sugeriu à professora que seu amigo fizesse o protagonista da próxima vez, já que ele que fizera dessa vez, e Teh o havia ajudado tanto para se dar bem nessa apresentação. Oh-aew foi egoísta, e além disso declarou que o sonho de Teh, agora era o seu também. Ele finalmente havia se encontrado, e o lugar onde se encontrou foi: no sonho de Teh.
A partir disso a história vai se desenvolver. Teh e Oh-aew se afastam por anos, e tornam a se reencontrar no último ano do ensino médio, não na mesma escola, mas em um cursinho de chinês complementar que fizeram para o vestibular que queriam, da faculdade de Artes. Teh fora aprovado em uma pré-chamada pois era muito dedicado, já Oh-aew não passou, pois era horrível em chinês e simplesmente não estudava, ele teria que prestar o vestibular no fim do ano como todos, pois não passou o teste da pré-chamada, que garantia apenas 10 vagas, e uma delas foi de Teh.
Após isso, ele se reconectam, e a história vai dançar através de várias questões, mas a principal é o romance que se desenvolve entre Teh e Oh-aew nesse período onde Teh decide ajudar Oh-aew com o chinês, dando aulas particulares gratuitas.
Nós vamos descobrir que Oh-aew se encantou, pela primeira vez na vida, por algo, que foi atuação, justamente por que fora algo que fizera com o Teh, praticou, ensaiou, e que ele não estava simplesmente "roubando" o sonho de Teh. Isso tinha uma ligação com um sentimento afetivo que Oh-aew percebeu que sentia desde muito cedo por seu amigo. Teh, que se envolvia com uma garota (já no ensino médio, visto que o desenrolar desse romance ocorre nas últimas semanas do ensino médio), agora já não tinha certeza se gostava dela, se era bi, se era gay, se era simplesmente uma fase, ele se encontrava confuso, pois de repente não conseguia mais se ver sem Oh-aew, e tudo sem ele parecia tedioso. Essa é uma questão grande da narrativa, e que pode ser super entediante para o espectador o tanto de vezes que Teh nega o sentimento e simplesmente não beija o amigo. Acontece que o lar de Teh, apesar de amoroso, tem um irmão hétero que conheceu uma garota que os visita regularmente, e Teh passa a ver a mãe orgulhosa de um dos filhos em breve ter uma esposa, e poder ter filhos, o que planta na cabeça do garoto que se ele está apaixonado por um homem, ele jamais poderá deixar sua mãe orgulhosa. Se você não compreende esse ponto de vista, tanta enrolação para o romance rastejante de Teh e Oh-aew vai te frustrar, mas entediar jamais, pois como eu disse no início, o criador dessa série é um gênio.
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| Teh comparando-se com o protagonista do filme que ele admira. |
Mas apesar dos pontos óbvios da descoberta e aceitação da sexualidade que uma série de BL (Boys love) se propõe, eu queria ressaltar um que ela não aprofunda diretamente, mas que assombra nas entrelinhas: racismo.
Como deixei bem explícito no início, Teh é um garoto de pele parda, marrom, ele não é claro, e para aqueles que já conhecem um pouco da cultura tailandesas (e de vários outros locais asiáticos) sabe que há toda uma indústria baseada no embranquecimento. Produtos que embranquecem, clareiam. Uma cultura toda que vende pessoas claras no entretenimento. Simplesmente não há espaço para aqueles que não são claros. Essas pessoas vivem em um ambiente tropical, e não é preciso de muito para perceber que onde há sol, houve uma adaptação da sua população a mais melanina, o que significa pele marrom. Teh é um garoto marrom, que não tem o privilégio de ser medíocre, por isso ele é excelente em tudo que faz. Em determinado ponto da série nos será dito como ele passava fome por que passava horas estudando, que sua cabeça martelava e ele chorava de dor, mas ele se dedicava apesar disso.
Eu acredito que, apesar de um ponto INDIRETO da narrativa, é totalmente proposital trabalhar este tema. O garoto nunca é escolhido, em seu lugar o garoto claro (Oh-aew) é escolhido para o papel, mesmo sem esforçar-se, mesmo apresentando-se mal, ele recebe novamente o papel, e não percebe o egoísmo. Quando ele cresce, ele acha injusto o amigo ser bom em tudo, e saber o que quer, mas ele não vê que o Teh cresceu com muita desvantagem em relação a ele, que Teh não tem uma família estruturada, não tem financiamento, não tem o privilégio de brincar no ensino médio e não dedicar-se e não estudar, e é claro, existem caso de pessoas que não conseguem estudar por falta de concentração, mas aqui, é explícito que não é o caso. Oh-aew não estuda por que não quer.
Se você assiste a essa série e não percebe um ponto tão crucial, você está perdendo metade da sua discussão. Sem querer dar spoiler dos últimos episódios, pois são acontecimentos de cair o queixo da falta de noção de algumas pessoas, de egoísmo, de também de imprudência de outras, e mesmo de hormônios à flor da pele e da falta de pensamento na tomada de decisões, mas vai acontecer algo que você se questiona: Uau, o Oh-aew não possuiu NEM UM PINGO de noção, de senso, de consciência de classe. Apesar do que seu amigo faz por ele, ele ainda sim é super egoísta e infantil.
A série, claro, constrói para que nós perdoemos, as atitudes estúpidas que os dois tiveram, e o egoísmo e falta de consciência de Oh-aew, para que nos apaixonemos pela sensação positiva, o amor, mas é tão cruel. Para mim ficou extremamente difícil de engolir que alguém possa se odiar tanto ao ponto de aceitar a falta de compreensão da situação da outra. A série tenta nos convencer de que não há um problema, de que não precisamos nos preocupar, pois não é aprofundado, mas eu estou vendo um garoto pobre se envolver com um rico que não respeita a abnegação que o garoto pobre faz por ele. Eu estou vendo um garoto rico que repete seus erros e os justifica com sentimento, tadinho ele está magoado, é coração partido, porém isso definitivamente não é o que eu poderia chamar de amar alguém. Oh-aew ama a sensação de ter Teh com ele, pois ele lhe lembra aquilo tudo que ele sempre admirou, e deve sentir que é destino os dois estarem ali apesar de tudo, mas o destino tem nome, e é Teh. Teh perdoa tudo, abre mão de tudo, se ferra, e se desculpa, e se humilha e no fim ainda sai como culpado, tudo em nome de um sentimento reprimido que ele demorou demais para expressar, e apesar de tudo ele ainda ama Oh-aew e o perdoa. Isso é o destino agindo.

Eu não sei o que me espera na parte 2, mas eu definitivamente adoraria que fosse sobre Teh percebendo que Oh-aew foi uma paixão de infância mesmo. Que apesar do sentimento delicioso da autodescoberta, aquele rapaz não o ama, não um amor puro, um amor que compreenda, que abra mão, ele ama nas sensações simplistas que o amor permite, e é por isso que ele é frágil como uma rosa, frágil como uma flor de hibisco.
Duvido que seguirá por esse caminho. Acho que essas escolhas do criador da série foram propositais sim, devido à quantidade e dedicação para colocá-las na trama, mas que não impactarão diretamente nela em momento algum. Afinal segue sendo uma história de romance.
Apesar de tudo isso, é possível sim deixar toda a raiva de lado, ver Oh-aew como um adolescente que do topo de seu privilégio não enxerga as questões que contornam o mundo ao seu redor, e só está querendo viver aquela sensação que o amor causa no organismo. Se eu abrir mão de me incomodar com isso, se eu abraçar o romance, a história de amor... aaaaaaaaaa mas é tão difícil, isso me incomoda tanto. No fim, acho que mesmo que o criador da série quisesse que o público apenas se deliciasse com esse romancezinho slow burn, ele também é o responsável por provocar em nós essa sensação incômoda de que um dos dois rapazes está recebendo mais do que merecia. E o outro recebendo pouco, bem pouco e lidando com isso, afinal ele esteve a vida toda acostumado com pouco, então talvez o ponto seja que ele não percebe também quando se trata de amor.

O final é fofo sim. E acho que apesar de a série não aprofundar no peso da temática de classe e racial, isso torna o clima da série direcional, ela quer que você pense mais no romance, se emocione com os diálogos emotivos relacionado ao amor. É bonito isso também. E como eu disse o autor é maluco, mas um gênio, e ele quer que você enlouqueça, digo isso por que o que ele fez em Gelboys é de matar qualquer um. Aqui ele ainda enlouquece os mais atentos, mas está mais focado em emocionar. E me emocionou. Saio positivo. Apesar de desejar que Teh se livre de Oh-aew, saio positivo.
(Ok, ok. Oh-aew não é todo esse vilão que pareceu pelo texto que eu fiz. Eu meio que acabei com ele o texto inteiro. Mas ele tem construções muito interessantes. Inclusive o fato dele se imaginar como uma mulher por que o Teh é "hétero", é uma sacada muito boa. Apesar disso, reforço: a série queria SIM nos incomodar com o recorte de classe, e é por isso que eu fico puto com o personagem do Oh-aew. E eu digo com certeza de que a série quer incomodar com o recorte de classe, baseado especialmente na cena do resultado do vestibular, onde Oh-aew está recebendo o dele numa praia de águas cristalinas, em um resort luxuoso, com os dois pais ao seu lado, enquanto Teh está com sua única mãe, em um restaurante simples, que está fechado e vazio.)
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| O autor da série enquanto escrevia ela, e eu enquanto assistia. |