aceitável andar de mãos dadas com outro menino, apesar de isso ser tudo bem quando se é bebê. Eu refleti sobre tudo isso, em especial, por que me lembrei desse meu amigo de infância, e percebi que pela primeira vez eu estava tendo uma amizade baseada na amizade, ao invés de hierárquica como geralmente era com os outros meninos.
Iniciei recentemente uma pesquisa para o meu TCC, que por acaso envolve o Mauro de Sousa, filho do Maurício de Sousa, filho este que inspirou o personagem Nimbus. Nessa pesquisa encontrei um vídeo dele relatando sobre quando ele se percebeu homossexual, e isso me despertou uma lembrança, uma lembrança de um amigo que eu tive, e agora, pensando nesse amigo, percebo como isso revela várias nuances da experiência de ser uma criança, ser um menino, e ser uma menino criança queer.
Antes de falar sobre meu amigo, falarei sobre a experiência masculina na infância.
Isso obviamente acontece mais quando você tem amigos um pouco mais velhos, mas de toda maneira, todos são crianças, embora uma seja um ou dois anos mais velha, se ela é violenta, machista, isso é resultado da repreensão que traz, e isso gera um ciclo nas amizades.
Na minha infância eu vivia em um condomínio enorme, com vários prédios, muito espaço para brincar, jardins, árvores enormes, e muitas crianças. A minha relação com as meninas sempre foi muito melhor, mas é claro, as próprias meninas começam a te excluir de algumas brincadeiras, pois elas também foram ensinadas que certas coisas são apenas de meninas, embora isso aconteça bem menos do que o contrário. É importante para um menino ter alguns amigos meninos, mas quase todos os meninos do condomínio, ou eram bem mais novos, ou dois anos mais velhos que eu, o que significava Bullying. Eu era uma criança doce, com a voz fininha, saltitava, sorria. Embora meus tios sempre reforçassem o comportamento masculino, eu fui criado com pais divorciados, então a maior parte do tempo minha mãe não se importava com isso, ela não repreendia meu comportamento, e meu pai ficava pouco comigo para se importar com isso, ou mesmo notar isso. De todo modo, os meninos daquele lugar tinham famílias agressivas, pais agressivos, pais repressivos, e o pior: PAIS CASADOS. Eles foram ensinados a podar o comportamento "feminino", que no fim era apenas comportamento de criança, e punir meninos que ainda não os tinha podado. Embora eles fossem divertidos, como a relação masculina é hierárquica, quando alguém estava de boa, essa pessoa se tornava um alvo, e isso enfraquece a criação de laços, de amizade, afinal amizade é feita na sensibilização pelo outro, e é muito mais complicado ser um menino que se sensibiliza.
Acontece que eu ia me mudar, dali uns meses eu iria para um lugar bem longe, mas é justamente nesse momento que eu conheço um novo menino. Um menino que se mudou para o lado da minha casa, a porta ao lado. Ele era o J. O J tinha exatamente os mesmos gostos que os meus, ele amava Harry Potter, ele gostava de imaginar, gostava de contos de fadas. Adorávamos fingir que éramos os personagens de Harry Potter e correr para lá e para cá segurando gravetos, fingindo ser varinhas. Nesse período também surgiu uma garota, a R, e nós nos tornamos inseparáveis, afinal ela também era muito fã de Harry Potter. Nós passávamos o dia todo juntos, mas quando a R ia para a casa, ficávamos só eu e o J, afinal morávamos um do lado do outro. A R foi importante, mas o J? Acho que nunca tive algo igual depois dele. Não existia uma atração, na verdade era puramente amizade. Era alguém exatamente igual a mim, eu lembro perfeitamente de ter dito isso a ele enquanto nós conversávamos. Acho que nós também tínhamos o mesmo signo do horóscopo, e as coincidências eram inúmeras. Ele também vivia apenas com a mãe, tinha os pais divorciados. Enfim, a lista era bem maior, tenho certeza, ou mesmo a noção de quantidade para crianças seja distorcida ou menos exagerada, pois hoje eu diria que se fosse apenas isso, era bastante coisa em comum, mas nem tanto assim, mas naquela época era suficiente. O J era um ano mais velho do que eu, mas aquilo não fazia diferença. De repente todos os outros amigos não faziam diferença. Eu me lembro perfeitamente de diversas vezes, ver o J se aproximando, e antes que ele pudesse chegar, eu corria até ele, largava aqueles meninos mais velhos, e íamos só nós dois. Talvez fosse um pouco de ciúmes, mas talvez fosse proteção. Eu sabia que se eles conhecessem o J, as piadas deixariam de ser comigo, que era o mais novo, e passaria a ser com ele, afinal é mais legal zoar com alguém que compreende melhor que estão rindo de você ao invés de com você.
É claro que em certo ponto, o J conheceu sim os outros meninos, mas na minha lembrança não tenho isso, vagos vislumbres, já que nós brincávamos com umas meninas do nosso prédio também, além da R, e essa meninas eram amigas dos meninos mais velhos, essa conexão ocorreu em algum momento, mas é irrelevante.
O que quero dizer foi que pela primeira vez eu encontrei alguém que me entendia completamente, alguém que não julgava, que na verdade passava pelas mesmas coisas que eu, e eu lembro de ficar devastado, pois eu sabia que aquela amizade tinha uma data de validade curta. Eu iria embora, mas aproveitava cada dia que podia ao lado do J. Não era romântico, como disse antes, eu não sei se se eu continuasse lá, se tornaria algo do tipo, mas naquele momento era como finalmente ter um amigo. Pela primeira vez ter um amigo. Esse é o tipo de amizade que só vemos nos filmes, de meninos que são super unidos, que se amam, que são parecidos em tudo, que se um começa a frase, o outro completa. Eu nunca tive aquilo de novo. Eu saberia, pois aquela sensação é tipo estar apaixonado, mas sem toda a coisa dolorosa do desejo romântico, era uma alegria desesperadora por estar com alguém que te transportava para um mundo de imaginação que só vocês compreendiam. Era coisa de filme, mas na vida real. Era como Harry Potter, mas sem precisar imaginar, acontecia mesmo.
Muitos anos depois, após esforços, consegui contato com ele, e descobri que ele também acabou se tornando uma pessoa Queer, e talvez por isso nós fôssemos tão parecidos, no quesito sensibilidade um com o outro. Eu descobri que também foi tão legal para ele como foi para mim. Não era coisa da minha cabeça. Mas enfim, foi apenas um contato, e não fazia sentido começar uma amizade virtual com alguém que você já não tinha mais nada em comum, ou como eu disse, na infância a noção que quantidade é bem menor, e agora enquanto adulto, não faz sentido ter uma amizade com alguém que vocês apenas compartilham duas ou três coisas em comum, mas principalmente, não estávamos próximos um do outro, e para mim, pelo menos, seria meio triste começar essa amizade virtual, era estranho, era invasivo tentar retomar algo do passado, era trair a memória. Não nos falamos tanto assim, e depois, acabou, nunca mais nos falamos, e é melhor assim. Ele está intacto na minha memória.

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